PROCESSO CRIATIVO / 19 de outubro de 2026
O que permanece por baixo
Há uma imagem que começa antes da mão.
Uma pressão no escuro.
Qualquer coisa que procura passagem entre o que ficou por dizer e o que ainda não aprendeu a nascer.
Aproximo-me desse lugar sem o conhecer por inteiro. Levo uma linha, um fragmento, uma cor que chegou de outro dia. Às vezes basta um gesto para abrir espaço. Outras vezes, tudo o que acrescento torna mais espessa a distância.
É aí que começo a sobrepor.
Uma camada pousa sobre outra e altera-lhe o tempo. O que era caminho torna-se fundo; o que parecia perdido reaparece numa transparência. Há formas que só encontro depois de as ter escondido. Continuam ali, por baixo, a desviar o movimento da mão, como uma pedra muda o curso da água sem precisar de vir à superfície.
Cada obra guarda estes acontecimentos.
O que se vê.
O que deixou de se ver.
O que, mesmo coberto, continua a acontecer.
O desenho abre uma fenda. A cor demora-se nela. Um fragmento aproxima duas distâncias que nunca se tinham tocado. Quando volto à imagem, já alguma coisa se deslocou: uma linha atravessa o lugar onde antes havia repouso, uma sombra dá peso ao que parecia suspenso.
Trabalho nesse intervalo. Entre reconhecer uma forma e permitir que ela deixe de ser aquilo que reconheci.
As camadas associadas a uma obra são também estas permanências: o impulso que iniciou o percurso, a hesitação que o interrompeu, a memória que entrou sem pedir lugar. O gesto digital, o desenho, a colagem ou a matéria dão-lhes corpos diferentes. Por vezes encontram-se na mesma superfície. Por vezes uma imagem demora vários corpos a chegar a si.
A roda atravessa todas as obras. Nasce dessa vontade de regressar.
Coloco a obra no centro e deixo à sua volta os caminhos por onde passou, os que se aproximaram, os que ficaram por atravessar. Vejo-a como se escutasse os anéis de uma pedra lançada à água. O primeiro movimento já desapareceu, mas a superfície continua a responder.
Há uma parte que ganha cor. Ali o gesto deixou uma presença. À volta, o cinzento guarda espaço para outros encontros. O que ainda não aconteceu também participa da imagem: dá-lhe distância, deixa-a respirar.
Em cada obra, volto ao mesmo núcleo em momentos diferentes. Acrescento, desvio, sobreponho. O amarelo encontra uma sombra e já não é o mesmo amarelo. Um círculo fecha-se sobre uma passagem; mais adiante, uma linha volta a abri-la. A imagem vai guardando as suas noites.
Quando a levo para o papel ou para a tela, encontro-a de novo. A escala muda a distância do corpo. A luz demora-se no tecido. O olhar aproxima-se de um pormenor que antes atravessava depressa.
E a obra continua.
Também quem olha lhe traz uma camada: um lugar de que se lembra, uma ausência, a cor de uma tarde que ninguém mais conhece. Alguma coisa da imagem encontra essa vida e desloca-se com ela.
Talvez seja aí que a mão pode parar.
Quando já existe espaço
para o sonho de outro.





